(Salmo 77:13-14)
(1) "A Deus elevo a minha voz e suplico; a Deus elevo a minha voz para que ele me escute.
(2) Quando estou angustiado, busco o Senhor; de noite estendo as mãos sem cessar; a minha alma está inconsolável!
(3) Lembro-me de ti, ó Deus, e começo a gemer; começo a meditar, e o meu espírito desfalece. Pausa
(4) Não me permites fechar os olhos; tão inquieto estou que não consigo falar.
(5) Penso nos dias que se foram, nos anos que há muito se passaram.
(6) De noite recordo as minhas canções; o meu coração medita, e o meu espírito pergunta:
(7) "Irá o Senhor rejeitar-nos para sempre? Jamais tornará a mostrar-nos o seu favor?
(8) Desapareceu para sempre o seu amor leal? Acabou-se a sua promessa por todas as gerações?
(9) Esqueceu-se Deus de ser misericordioso? Na sua ira refreou a sua compaixão?". Pausa
(10) Então, pensei: "A razão da minha dor é que a mão direita do Altíssimo não age mais".
(11) Recordarei os feitos do Senhor; recordarei os teus antigos milagres.
(12) Meditarei em todas as tuas obras e considerarei todos os teus feitos.
(13) Os teus caminhos, ó Deus, são santos. Que deus é tão grande como o nosso Deus?
(14) Tu és o Deus que realiza milagres; mostras o teu poder entre os povos.
(15) Com o teu braço forte resgataste o teu povo, os descendentes de Jacó e de José. Pausa
(16) As águas te viram, ó Deus, as águas te viram e se contorceram; até os abismos estremeceram.
(17) As nuvens despejaram chuvas, ressoou nos céus o trovão e as tuas flechas reluziam em todas as direções.
(18) No redemoinho, estrondou o teu trovão, e os teus relâmpagos iluminaram o mundo; a terra tremeu e sacudiu-se.
(19) A tua vereda passou pelo mar; o teu caminho, pelas águas poderosas, e ninguém viu as tuas pegadas.
(20) Guiaste o teu povo como a um rebanho pela mão de Moisés e de Arão."
Versículos chave:
- (Salmo 77:13-14) (13) "Os teus caminhos, ó Deus, são santos. Que deus é tão grande como o nosso Deus? (14) Tu és o Deus que realiza milagres; mostras o teu poder entre os povos."
Introdução:
Há momentos em que olhamos para o que está acontecendo e simplesmente não conseguimos entender os caminhos de Deus. Perguntamos, buscamos respostas, tentamos compreender, mas nem sempre encontramos uma explicação.
Foi exatamente assim que Asafe se sentiu. Em meio à angústia, ele fez perguntas profundas sobre Deus e sobre aquilo que estava vivendo. Mas, no decorrer do salmo, algo mudou dentro dele.
As circunstâncias talvez não tivessem mudado, mas a maneira como Asafe passou a enxergá-las mudou completamente.
A mudança torna-se especialmente clara nos versículos 11 e 12. Depois de perguntar: "Esqueceu-se Deus de ser misericordioso?" (v. 9), Asafe declara: "Recordarei os feitos do Senhor" (v. 11). Ele não recebe imediatamente uma explicação para sua dor; em vez disso, passa a direcionar sua memória e sua meditação para aquilo que Deus já havia feito.
O que aconteceu com o salmista? O que ele percebeu sobre Deus que transformou sua perspectiva?
Quando não entendemos os caminhos de Deus
1) Quando não entendemos, confiamos no caráter de Deus:
(13) "Os teus caminhos, ó Deus, são santos.
- A expressão "teus caminhos" não se refere simplesmente a estradas ou trajetos. No contexto, aponta para a maneira como Deus age e conduz Seus propósitos.
- A expressão traduzida pela NVI como "os teus caminhos [...] são santos" apresenta uma particularidade no hebraico e pode ser entendida em relação à santidade - e, em algumas traduções, ao santuário. Seguindo a leitura adotada pela NVI, o sentido ressalta que o caminho de Deus pertence à esfera da Sua santidade e é coerente com Seu caráter santo.
Isso é extraordinário dentro do contexto, porque Asafe vinha perguntando: "Irá o Senhor rejeitar-nos para sempre? [...] Esqueceu-se Deus de ser misericordioso?" (Salmo 77:7,9)
Ele não consegue compreender o que Deus está fazendo. Porém, quando se lembra das obras divinas, chega a uma conclusão: "Talvez eu não compreenda os caminhos de Deus, mas sei que os caminhos dEle são santos".
Portanto, o texto não ensina que sempre entenderemos Deus. Ensina algo mais profundo: podemos confiar no caráter de Deus mesmo quando não compreendemos Sua atuação.
Asafe não passa da incompreensão para uma explicação de todos os caminhos de Deus; ele passa da incompreensão para uma renovada confissão sobre o caráter de Deus.
2) Quando a dor nos limita, contemplamos a grandeza de Deus:
Aqui temos uma pergunta retórica:
Que deus é tão grande como o nosso Deus?
Asafe não está procurando outro deus para comparar com YHWH. A resposta implícita é: nenhum.
No contexto do Antigo Testamento, essa linguagem também ressalta a incomparabilidade do Deus de Israel diante das divindades adoradas pelas nações.
- Observe a mudança no salmista. Antes, sua atenção estava concentrada em sua própria aflição: "Quando me lembro de Deus, gemo..." (v. 3)
- Agora sua atenção está concentrada na grandeza divina: "Que deus é tão grande como o nosso Deus?"
O texto não registra uma mudança nas circunstâncias; o que claramente mudou foi a perspectiva do salmista e aquilo que passou a ocupar o centro de sua atenção.
A circunstância ainda não necessariamente mudou. Quem mudou foi o foco do salmista.
Há aqui um princípio importante: a fé não nega a realidade da dor; ela reposiciona a dor diante da realidade maior de quem Deus é.
Nos primeiros versículos predominavam expressões como "minha voz", "minha alma", "meu espírito", "meus olhos" e "minhas canções". Agora sua linguagem se volta cada vez mais para "tuas obras", "teus caminhos", "teu poder", "teu braço" e "teu povo". Deus volta a ocupar o centro do horizonte de Asafe.
3) O presente nos assusta, lembramos das obras de Deus:
Depois de recordar as obras de Deus nos versículos 11 e 12 e confessar Sua santidade e incomparabilidade no versículo 13, Asafe volta às maravilhas divinas no versículo 14:
(14) Tu és o Deus que realiza milagres;
- "Milagres" ou "maravilhas" traduz a ideia hebraica de feitos extraordinários, obras que provocam admiração e revelam a intervenção divina.
Asafe está recordando os grandes atos históricos de Deus, isso fica evidente nos versículos seguintes: "Com o teu braço forte resgataste o teu povo, os descendentes de Jacó e de José." (v. 15)
A partir do v. 16, aparecem imagens poéticas de teofania associadas à libertação de Israel e à travessia do mar: as águas estremecem, os céus trovejam, os relâmpagos iluminam o mundo e, finalmente, o caminho de Deus passa pelas águas.
Portanto, o pensamento é: "O Deus a quem estou clamando agora é o mesmo Deus que já demonstrou na história Seu poder para salvar".
A memória torna-se, então, um instrumento da fé.
No versículo 9, Asafe havia perguntado: "Esqueceu-se Deus de ser misericordioso?". No versículo 11, porém, ele declara: "Recordarei os feitos do Senhor". Asafe pergunta se Deus se esqueceu, mas a mudança começa quando ele próprio decide se lembrar.
4) Quando Deus age, Seu poder revela quem Ele é:
Agora a ação de Deus ultrapassa Israel: "entre os povos":
mostras o teu poder entre os povos."
O poder de Deus manifestado no Êxodo não foi apenas uma experiência particular de Israel. Seus atos tornaram conhecido Seu poder para além de Israel e diante dos povos.
Isso está profundamente conectado ao Êxodo. Deus declarou a Faraó: "Eu o mantive de pé exatamente com este propósito: mostrar-lhe o meu poder e fazer que o meu nome seja proclamado em toda a terra." (Êxodo 9:16)
Assim, no Salmo 77:14, o poder divino não aparece como espetáculo. Deus manifesta poder para revelar quem Ele é e cumprir Seus propósitos redentores.
O movimento completo de Salmo 77:13-14:
Há uma progressão muito bonita:
- "Teus caminhos são santos" - fala do caráter de Deus.
- "Que deus é tão grande..." - fala da incomparabilidade de Deus.
- "Realiza milagres" - fala das obras de Deus.
- "Mostras o teu poder entre os povos" - fala da revelação pública da soberania de Deus.
Mas essa progressão faz parte de um movimento ainda maior no salmo: dor - perguntas - memória das obras - meditação - caráter de Deus - maravilhas e poder - redenção - caminho invisível - condução.
E o restante do salmo culmina numa imagem extraordinária: “A tua vereda passou pelo mar, o teu caminho pelas águas poderosas, e ninguém viu as tuas pegadas.” (Salmo 77:19)
Aqui está uma das grandes mensagens do Salmo 77: Deus estava conduzindo Seu povo mesmo quando Suas pegadas não podiam ser vistas.
Isso conversa diretamente com o início do salmo. Asafe se lembra de uma ocasião em que, diante do mar, Israel humanamente não enxergava uma saída. Contudo, Deus abriu caminho justamente onde não havia caminho visível.
Por isso, uma síntese fiel ao texto seria: Nem sempre conseguiremos discernir as pegadas de Deus, mas podemos confiar plenamente em Seus caminhos, pois aquilo que escapa à nossa compreensão jamais escapa ao Seu governo e permanece seguro sob a santidade imutável do Seu caráter.
E há outra verdade poderosa nesse texto: Asafe começou o salmo levantando perguntas sobre o aparente silêncio e a aparente ausência da ação de Deus, mas terminou se lembrando de quem Deus sempre foi. As circunstâncias alimentavam suas perguntas; a memória das obras de Deus, porém, reposicionou sua perspectiva diante do caráter divino.
E o salmo ainda acrescenta uma última imagem decisiva. Depois de afirmar que ninguém viu as pegadas de Deus, Asafe declara: “Guiaste o teu povo como a um rebanho” (v. 20). As pegadas não eram visíveis, mas a direção de Deus era real. O salmo não termina com Asafe compreendendo todos os caminhos; termina com a lembrança de que Deus continua sendo o Guia do Seu povo.
Conclusão:
Asafe não terminou o salmo com todas as suas perguntas respondidas. Terminou confessando novamente a santidade, a grandeza e o poder de Deus e recordando que Ele havia guiado Seu povo.
Ao recordar quem Deus é e aquilo que Ele já havia feito, sua perspectiva foi reposicionada diante do caráter e dos feitos de Deus. Ele não precisou compreender todos os caminhos para reconhecer que o Deus que conduz é digno de confiança.
Talvez também não consigamos enxergar as pegadas de Deus em alguns momentos da nossa caminhada. Mas podemos continuar confiando em Seus caminhos.
Porque, quando não entendemos o que Deus está fazendo, ainda podemos descansar em quem Deus é.
Asafe não encontrou uma explicação para todos os caminhos de Deus; ao recordar as obras de Deus, reencontrou razões para confiar no caráter daquele cujos caminhos nem sempre podia compreender.
A ausência de pegadas visíveis não significa ausência da presença e da condução de Deus.
Graça e paz,
Pra. Angela Caldas.