A Palavra sustentando na aflição:
(Salmo 119:92) "Se a tua lei não fosse o meu prazer, o sofrimento já me teria destruído."
A expressão hebraica (toratekha) significa "Sua Torá" ou "Sua instrução". Torá não significa simplesmente 'lei" no sentido jurídico. No contexto bíblico, o termo possui um campo semântico mais amplo e comunica a ideia de instrução, ensino e orientação provenientes de Deus.
O termo (sha‘ashu‘ai), traduzido como "meu prazer" ou "meu deleite", é igualmente significativo. O salmista não afirma apenas que conhecia a Palavra ou concordava intelectualmente com ela. Ele encontrava na instrução de Deus o seu deleite - aquilo a que seu coração se apegava em meio à aflição.
- A Palavra de Deus era a sua fonte de satisfação profunda, prazer intenso, ou seja, proporcionava grande alegria interior.
A frase final utiliza o verbo (’avad), que pode transmitir as ideias de "perecer", "ser destruído" ou 'desaparecer". Assim, o sentido do versículo pode ser expresso desta maneira:
- "Minha aflição teria me consumido, se a instrução de Deus não fosse o meu deleite".
Verdade central:
Deus não necessariamente retirou imediatamente o salmista da aflição; por meio de sua Palavra, sustentou-o dentro dela.
Essa verdade aparece também alguns versículos antes: "Este é o meu consolo no meu sofrimento: A tua promessa dá-me vida" (Salmo 119:50).
A Palavra não é apresentada apenas como uma explicação para o sofrimento, mas como fonte de consolo e sustentação em meio ao sofrimento.
A Palavra comunicando vida:
(Salmo 119:93) "Jamais me esquecerei dos teus preceitos, pois me preservas a vida por meio deles."
No hebraico, a declaração começa de maneira enfática: "Para sempre não esquecerei..."
Esse "não esquecer" vai além da mera capacidade de recordar intelectualmente alguma informação. Na linguagem bíblica, lembrar-se da Palavra de Deus implica guardá-la, permanecer nela e permitir que ela governe a vida.
Em seguida, o salmista apresenta a razão: "...pois por meio deles me deste vida".
A expressão (ḥiyyîtānî) vem do verbo (ḥayah), "viver". Aqui aparece numa forma intensiva/causativa do hebraico, podendo comunicar a ideia de "dar vida", "preservar vivo", "fazer viver" ou "vivificar".
O salmista, portanto, reconhece que foi o próprio Deus quem lhe preservou a vida por meio de seus preceitos.
E aqui surge uma ligação extraordinária entre os dois versículos:
- v. 92 - "Eu teria perecido..."
- v. 93 - "Tu me fizeste viver."
A aflição ameaçava levá-lo à destruição, mas Deus, por meio de sua Palavra, produziu o contrário: preservou-lhe a vida.
Há, portanto, um contraste intensamente poderoso:
- Aflição = possibilidade de perecer.
- Palavra de Deus = preservação da vida.
O salmista não ama a Palavra simplesmente porque ela lhe oferece informação. Ele se deleita nela porque experimentou, em meio à aflição, o poder sustentador daquilo que Deus havia falado.
A Palavra que ele conhecia tornou-se a Palavra que o sustentava.
A verdade que estava diante de seus olhos tornou-se sustento para sua alma.
Por isso, a grande questão na aflição não é apenas: "Quando Deus vai me tirar daqui?"
Há outra pergunta igualmente importante: "Como Deus está me sustentando enquanto ainda estou aqui?"
Às vezes, a manifestação da fidelidade de Deus não está na remoção imediata da fornalha, mas na graça que nos mantém firmes enquanto atravessamos o fogo.
E essa verdade alcança sua expressão culminante em Cristo.
Quando foi tentado no deserto, Jesus respondeu: "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." (Mateus 4:4; Deuteronômio 8:3)
E o próprio Cristo declarou: "As palavras que eu lhes disse são espírito e vida." (João 6:63)
Portanto, não nos aproximamos das Escrituras apenas para adquirir conhecimento. Aproximamo-nos delas reconhecendo que o Deus vivo utiliza sua Palavra para alimentar a fé, fortalecer a esperança, corrigir nossos caminhos e sustentar seu povo em meio às aflições.
O Salmo 119:92-93 nos ensina uma verdade preciosa: A aflição pode nos atingir profundamente, mas não possui a palavra final sobre aqueles que são sustentados pela Palavra de Deus.
O salmista poderia dizer:
- Eu teria perecido... mas a Sua Palavra era o meu deleite.
- Eu teria sucumbido... mas Tu me fizeste viver.
Graça e paz,
Pra. Angela Caldas.
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